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Deslocações

Escutar quem viveu no Bairro do Aleixo, reconstruir memórias e dar-lhes lugar na história da cidade. Estudantes de educação e de cinema e fotografia cruzam investigação comunitária e criação artística com antigos moradores.

  • João QueirósFaculdade de Educação — UTPorto
Ilustração de uma estudante a escutar duas pessoas mais velhas junto de um álbum e um gravador, com imagens de casas ligadas por uma fita amarela.

O desafio

A demolição do Bairro do Aleixo, entre 2011 e 2019, dispersou os seus moradores por outros bairros de habitação pública do Porto. Com a mudança de casa, ficaram também em causa relações de vizinhança, referências quotidianas e espaços de partilha da memória. Como voltar a reunir essas experiências e fazer ouvir as pessoas que raramente participam na construção dos discursos sobre a cidade?

Para os estudantes, o desafio é aprender a investigar com as pessoas: escutar, compreender os seus percursos e construir narrativas que respeitem a maneira como desejam ser representadas. O trabalho aproxima a formação académica da vida de uma comunidade e transforma a recolha de histórias num processo de diálogo e reconhecimento.

Objetivos de aprendizagem

A prática procura que os estudantes aprendam a:

  • Relacionar conceitos sobre comunidade, memória, identidade e desigualdade urbana com trajetórias de vida concretas.
  • Preparar e realizar trabalho de campo, entrevistas de história de vida e registos etnográficos, fotográficos e audiovisuais.
  • Analisar testemunhos e construir narrativas apoiadas na investigação, articulando texto, fotografia e vídeo.
  • Trabalhar entre áreas disciplinares, conjugando investigação social, intervenção comunitária e criação artística.
  • Tomar decisões responsáveis sobre a recolha, representação e divulgação das histórias, respeitando a diversidade e os participantes.
  • Desenvolver autonomia, empatia, comunicação e trabalho em equipa, apresentando e discutindo resultados com públicos distintos.

O que sustenta a prática

A prática assenta na investigação baseada na comunidade: as experiências e perspetivas dos antigos moradores são o ponto de partida para compreender o território e as suas transformações. A proximidade à história oral e à etnografia permite ligar acontecimentos da cidade a percursos individuais, relações e sentidos de pertença.

A investigação baseada em práticas artísticas acrescenta outras formas de conhecer e partilhar. A fotografia e o vídeo documental não servem apenas para ilustrar resultados; participam na exploração das experiências e na sua discussão pública. A colaboração entre educação e artes permite que a análise social informe a criação e que as linguagens visuais tragam novas perguntas à investigação.

O projeto beneficia da investigação anterior de João Queirós sobre o Aleixo e do trabalho fílmico de Filipe Martins naquele território. A orientação docente, a preparação ética e a devolução aos participantes sustentam a ligação entre aprendizagem, investigação e responsabilidade pública.

Como funciona

1. Preparar a escuta e o trabalho conjunto. Os grupos apropriam-se dos conceitos e métodos, conhecem os contributos das duas áreas de formação e definem formas de colaboração. Preparam guiões de entrevista, equipamento e protocolos de atuação, com formação sobre o enquadramento ético e legal da pesquisa e contacto com parceiros.

2. Encontrar as pessoas nos seus contextos atuais. Os estudantes realizam entrevistas de história de vida com antigos moradores do Aleixo, incluindo pessoas ligadas à associação local. O trabalho combina observação e diálogo com registos fotográficos, áudio e vídeo, nos contextos onde os participantes vivem hoje.

3. Construir narrativas e devolvê-las. Os testemunhos são tratados e analisados para produzir narrativas em texto, fotografia e vídeo. A discussão com os participantes permite rever interpretações e envolvê-los na definição dos resultados e produtos finais.

4. Partilhar dentro e fora da universidade. Relatórios e apresentações integram o trabalho das unidades curriculares. A circulação pública passa pela coleção do Museu da Pessoa e por iniciativas de apresentação e debate. O plano de disseminação inclui ainda um encontro público, a legendagem em português e inglês de «Memória Futura» e um livro físico e digital.

As equipas docentes acompanham o processo nas aulas e em orientação tutorial. O calendário proposto distribui a preparação entre setembro e dezembro de 2025, o trabalho de campo entre janeiro e abril de 2026 e o tratamento e a disseminação dos resultados entre junho/julho e dezembro de 2026.

Avaliação da aprendizagem

A avaliação da aprendizagem está integrada nas unidades curriculares e acompanha o percurso de investigação. No Mestrado em Educação e Intervenção Social, os elementos previstos incluem narrativas de vida em formato textual, relatórios finais de pesquisa e apresentações dos trabalhos.

A orientação continuada permite discutir as opções conceptuais e metodológicas, o tratamento dos testemunhos e a coerência das narrativas. Os momentos intermédios e finais de discussão coletiva envolvem estudantes das duas áreas e ajudam a refletir sobre o processo e a colaboração interdisciplinar.

A devolução aos participantes acrescenta uma apreciação partilhada sobre a representação das suas experiências. Complementa a avaliação académica, sem a substituir. A avaliação do projeto prevê também acompanhar, no ano seguinte, os efeitos da participação no percurso dos estudantes que entraram na iniciativa no 1.º ano.

Resultados e aprendizagens

A coleção do projeto no Museu da Pessoa é um resultado público em crescimento. Reúne histórias e materiais que tornam acessíveis as memórias dos antigos moradores e permitem acompanhar a disponibilização gradual dos resultados. Entre os conteúdos encontram-se «Memória Futura», «História do Aleixo» e testemunhos de antigos residentes.

Este espaço prolonga a aprendizagem para além da entrega de um trabalho: o que os estudantes investigam e produzem pode contribuir para a memória coletiva e para o debate sobre habitação, deslocação e vida urbana. A partilha procura valorizar as pessoas como participantes na história da cidade.

No plano pedagógico, o projeto procura aprofundar competências de investigação, criação, colaboração e intervenção comunitária. Estes são objetivos de impacto a acompanhar, não ganhos já quantificados. O encontro público previsto para dezembro de 2026 e a publicação do livro integram o plano de disseminação; não são aqui apresentados como realizações concluídas.

Como adaptar

A abordagem pode ser adaptada a outras comunidades, territórios e processos de transformação social. O essencial é partir de uma questão relevante para as pessoas envolvidas e construir com elas uma relação de confiança.

  • Começar com um pequeno grupo e um conjunto viável de histórias, ajustado ao tempo letivo e aos meios disponíveis.
  • Preparar os estudantes para a escuta, o trabalho de campo e as decisões éticas sobre registo e divulgação.
  • Articular áreas complementares: por exemplo, educação ou ciências sociais com fotografia, cinema, design ou comunicação.
  • Reservar tempo para transcrever, analisar e discutir as narrativas, evitando reduzir a atividade à realização de entrevistas.
  • Prever a devolução aos participantes e a sua participação nas decisões sobre os produtos finais.
  • Escolher um espaço de partilha acessível e adequado à comunidade, assegurando continuidade e cuidado com os materiais.

A publicação deve ser uma consequência de um processo acompanhado e acordado com os participantes. O valor pedagógico está tanto na relação e na reflexão como no produto que se torna público.

Recursos e materiais

Explorar a coleção «Deslocações» no Museu da Pessoa é a principal forma de conhecer os resultados que vão sendo disponibilizados. As histórias, os textos e os vídeos oferecem pontos de partida para discutir memória, identidade, deslocação residencial e representação pública das comunidades.

O trabalho pedagógico mobiliza guiões de entrevista, protocolos de atuação no terreno, registos de observação, equipamento de fotografia e gravação áudio e vídeo, transcrições, narrativas de vida e relatórios de pesquisa.

A investigação anterior sobre o Aleixo e a página do projeto no Instituto de Sociologia ajudam a contextualizar o percurso. «Memória Futura», disponível na coleção, pode apoiar sessões de visionamento e discussão. A coleção deve ser consultada como um acervo em desenvolvimento, respeitando as condições de utilização dos conteúdos e a voz dos seus participantes.

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